sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Eu sei que ainda tá bem longe, mas já tenho idéia de onde vou curtir minha merecida aposentadoria!

Ok, ok, ok... sem xingamentos muito sujos, por favor, também não é pra tanto, vai. Não sou nem um pouco imprescindível na vida de quem dedica algum tempo que seja pra ler as “lelecrices” quê escrevo. É verdade, há meses não encosto meus dedos nervosos no teclado pra escrever algo que preste minimamente pra esse blog. Rapaz, ta difícil, hein. Não sei o que é pior, a falta de tempo ou o excesso de preguiça que faz o tempo faltar. Mas enfim... tô de férias, ó que coisa boa, moço! Já passei por Minas, onde comi pé de moleque com rapadura (eu sei, é estranho, mas eu comprei sem querer achando que era só amendoim); pelo Rio de Janeiro, onde não fui nem no Corcovado e nem no Pão de Açúcar; segui pra Santos pra visitar mamãe, o mano, vó, vô, tia, “primaiada” e me estressar com uma vizinha um tanto quanto desequilibrada, pra ser bem ameno; e aí agora to em Presidente Venceslau... cidadão, viu?! Sério. Tá, vai, quarenta mil habitantes não enchem nem a metade do maracanã, mas é tudo gente do bem. Povo do interior é “bão demais”. É por aqui que eu vou me aposentar, com certeza absoluta. Só faço uma adaptação nesses planos se mudar de idéia (o que acontece de três a setenta vezes por dia).
Dá uma analisada nos prós e nos contras: Do lado bom da coisa tem o tal do tereré, ervinha maldita que vicia quem bebe. Quase um chimarrão com uns galhinhos bem grossos. Bebida encorpada e que a gente toma gelada. O melhor é que sempre junta uma roda grandes amigos “figuraças” pra “resenhar” (geralmente falar sobre futebol e carro) e passar o copinho de mão em mão. Todo mundo bebe na mesma “bomba”, um tipo de canudo de ferro cumprido. Só evito quando tô com herpes, sacanagem com os parceiros, né?! Aí tem pracinha, rua de paralelepípedo, um aceno de mão pra um conhecido a cada vinte metros, compra no supermercado assinando vale pra pagar depois, quando puder, como puder. Aqui é tudo assim. E o futebol? Tem quase todo dia. Aqui “pelada” a gente chama de “racha”. “E aí, Gu, tem racha hoje?”. É sempre tão bom ouvir que sim, arrumar a chuteira na mochila e correr pro campo.
Mas pra um hiperativo com déficit de atenção como eu deve ser no mínimo entediante viver por aqui a maior parte dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Sei lá, acho que me acostumei com barulho de buzina, hélice de helicóptero e sirene de polícia embalando minhas noites de sono mais ou menos bem dormidas. Amo acordar às três da madrugada e dar uma descida no mercadinho vinte e quatro horas pra comprar um chocolate. Acho fantástico ter tudo à mão sempre que precisar, contar com inúmeras opções na hora de cotar o preço de uma peça pro carro ou um lustre pra casa.
Sou louco por trabalho e absurdamente apaixonado pelo que faço, com a graça do nosso bom Deus. Ah, mas sempre que eu venho pra essas bandas tenho uma instantânea vontade de ficar por aqui pra sempre. Uma vontade que só sinto aqui. Quem sabe um dia alguém funda uma cidade de fato com todas as características positivas de uma metrópole (inclusive com o barulho na hora de dormir), mas com aquele “jeitaço” maravilhoso e apaixonante de cidadezinha bem de interior mesmo. Olha, amigo, se um dia esse lugar existir alguém me avisa... que eu corro pra lá!

sábado, 4 de julho de 2009

O comum não cabe no LCD

Definitivamente o digital está na moda. Por vezes o termo assusta mais que as mudanças trazidas por ele. Pouca gente sabe exatamente o que virá de novo num mundo digitalizado, só sabe que muda, muda e ponto. Quem trabalha em TV vive um período de transição. Um meteorologista em meio a uma tempestade sem saber se o sol vai aparecer ao fim dela. Muito se fala sobre os avanços que a TV Digital vai trazer. A interatividade, a possibilidade de se ter um televisor conectado na Internet, poder comprar um disco no intervalo da novela com um clique na tela de lcd. Incrível não? Mas e o jornalismo? Pro profissional da palavra pouco importam tantos recursos tecnológicos, tantas opções de entretenimento, sem a definição do que fica diferente no quesito informação.

Então pra nós o que de fato muda? Muda muito. O que hoje não damos tanta atenção pode ser o que vai definir nossa credibilidade. Uma imagem em alta definição mostra a barba mal feita, a espinha inflamada, o cravo mal espremido. Em HDTV somos pessoas de verdade, em 1080 linhas de resolução somos iguais a quem nos assiste, iguais a qualquer um. Os repórteres de “porcelana” serão cada vez mais escassos. “As” repórteres vão carregar na maquiagem, “os” repórteres vão ter que aprender a conviver com ela. É isso ou assumir as olheiras.

No entretenimento mudarão os cenários de novelas, de programas. Tudo vai ter que ser mais caprichado. Os pequenos detalhes vão saltar pra fora do monitor. As imagens das escaladas dos telejornais vão ser ainda mais chocantes, ainda mais impactantes.

Acredito que mais que tecnológico o futuro do jornalismo em TV vai ter uma linguagem que hoje ainda timidamente se apresenta aos telespectadores. Digo já há tempos que atualmente ninguém mais tem tempo de sentar em frente à televisão e assistir a um noticiário chato, quadrado, insosso. Junto com a tecnologia a maneira de contar as histórias também vai mudar... obrigatoriamente, acredito. Os repórteres de amanhã terão que ser envolventes, cativantes, conquistadores de quem os assiste. O chato não tem espaço na TV do futuro. Amanhã o comum já vai ter nascido velho.

Christina Siani "twittará"?

Eu "twitto", tu "twittas", ele "twitta", nós "twittamos", vós "twittais", eles "twittam". É, meu amigo, a internet inventou mais esse verbo. Mais um entre tantos “neologísticos” verbos e substantivos ponto com. Pois é, porque hoje eu "inicializo" meu dia de trabalho, "deleto" da memória a vontade de jogar futebol quando vejo o sol lá fora e faço o download da pauta do dia com a minha chefe. Depois eu faço um update na minha agenda e "baixo" os assuntos nos quais eu preciso me atualizar. Um backup de todas as fontes bacanas com quem eu conversar é sempre bom. Tem sido mais ou menos assim.

Só que repetir todo esse aparato vocabular tecnológico pra minha mãe é ensinar mandarim pra um jamaicano que fala só esperanto. Por mais que eu tente não tem jeito. Não consigo incluí-la digitalmente. Nem com programa do governo. Até endereço de e-mail eu já criei pra ela, mas nada. Ela insiste em viver como na década de 70, quando ainda gozava da então jovialidade pra conquistar admiradores do caráter e da beleza inenarráveis que ela ostentava. Imagino naquela época como deveria ser viver sem Orkut, msn. Sem poder visitar o blog do pretendente, sem poder dar uma “googada” na vida alheia pra saber se vale a pena chamar pra sair, ficar só amigo ou nem isso.

Agora com esse tal de twitter a ilusão veio à tona. Cara, eu sigo o Marcelo Tas, o Millôr Fernandes e o Marcelo Adnet. Mas por um acaso você acha que eles vão me dar ao menos um "oi, tudo bem como vai" se passarem por mim na rua, é? Tipo: “Opa, você não é o cara do twitter?”. Não! Só que “twittando” eles podem ser meus amigos de infância. Bicho, isso é muito doido. Com o Orkut não era assim não. Esse tal de twitter tá revolucionando o mercado dos deslumbrados cheios do mundo real.

Mas tudo bem, também sigo o G1, SBT Brasil, a CNN, The Economist... o que é bom. Porque assim tenho a sensação de que não estou alimentando o vício do inútil, como acontecia e ainda acontece com o Orkut. Orkut é entretenimento. No meu twitter pelo menos de vez em quando vêm umas manchetezinhas lá. Já dá pra se informar mais ou menos. E o bom é que eu sei como foi o treino do Corinthians hoje pelo post do globoesporte.com e sei também o que o Mano Menezes achou do Ronaldo na última partida pelo comentário dele numa discussão “twittatória”. Não é o máximo? Eu acho! Acho e vou continuar achando como já achei um dia que o ICQ, com aquelas florzinhas ridículas e aquele “óow” irritante avisando que uma mensagem chegou, era a melhor invenção da humanidade. Conclusão: Não é que tudo que é bom dura pouco, é que hoje em dia a duração de tudo que parece ser bom depende da capacidade criativa do homem em logo mais ali na frente inventar outra coisa que vai deixar o espetacular só no inconsciente coletivo de cada um. E tenho dito!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Até que é bom ser um problemático convicto!

É bom poder escrever. Aqui a gente registra as etapas do crescimento sem saber. Esses dias estava lendo uns textos antigos, foi o maior barato. Em cada conjunto de palavras a lembrança clara do contexto em que foi escrito. Aí comecei a entender o tesão de crescer. De fazer os desafios se tornarem fatos concretos, de trazer o inimaginável pro rotineiro, de renovar a carga de problemas.
Problemas... pensa bem, a gente não sabe valorizá-los. O que seria da vida sem todos os nossos problemas? Assim como o esfriar de uma garrafa de cerveja gelada é uma troca de calor com o ambiente onde ela está - no caso a mesa do boteco - a solução dos nossos problemas é a troca do esforço pela experiência. O fascinante é o desafio.
Claro que falar assim sobre algo que incomoda tanto a todos nós é muito bonito. Saco é ter que enfrentar tanta coisa chata e complicada pra viver bem. Mas tudo bem. Olha só, na verdade, cada nova fase da nossa vida é uma grande caixa fechada cheia de problemas doidos pra serem resolvidos. Quando a gente se cansa de um emprego, de um namoro, de uma amizade é porque precisamos partir pra outra. Pra outra leva de problemas. Eles sempre vão existir, o bom é que se renovem. Quando se tornam crônicos é melhor abandoná-los, com raríssimas exceções.
O emprego é bom enquanto os problemas ainda são desafiadores, quando o chefe é chato, mas parece te testar pra saber do que você é capaz, quando o colega é arrogante, mas parece uma questão de tempo até você conquistá-lo e ganhar um grande amigo pra falar mal do chefe xarope. Aí o tempo passa, o chefe continua chato e o amigo arrogante. Faça uma auto-reflexão: caso chegue à conclusão de que o problema não é você, procure outro emprego, procure outros problemas.
Bom, agora dá uma olhada na sua vida amorosa. O problema é a falta de dinheiro pra pagar um jantar decente pra namorada? Ou a falta de cumplicidade entre os dois? Carinho de menos? Demais? Ciúme demais? Podem nem ser problemas, porque no começo ela talvez nem ligue, você provavelmente nem ligue. Mas se ela começar a reclamar muito faça aquela pergunta pra você mesmo: O problema sou eu? Não, não sou! Ah, parceiro, troque a namorada! Procure outra que te ofereça problemas novos, mais desafiadores e menos crônicos.
No quesito amizade a questão é muito simples, pelo menos pra mim. Amigo não vai sumir, se acontecer não é por mal. Amigo não vai deixar de te atender, a menos que a bateria do celular acabe. Amigo vai sempre deixar bem claro que gosta de você, sem atitudes estranhas, sem olhares questionadores, a menos que você os mereça. Enfim, amigo te ajuda a resolver seus problemas. Se um amigo te complica mais do que te ajuda, então talvez não seja seu amigo.
De resto é o de sempre. Torcer pra que a vida nos dê de presente bons problemas. Se assim for, certamente iremos resolvê-los com o maior prazer do mundo.

A historia do ovo bomba

Um pouco de leite, dois ovos e queijo à vontade. Ingredientes modestos que, quando aliados ao saber culinário, resultam numa iguaria simplesmente divina: o ovo no leite.
Passado de geração em geração o prato é apreciado intensamente na família. E eu, como bom ostentador do sobrenome que me foi dado ao nascer, não poderia quebrar esta tradição, que rompe as barreiras do tempo e transcende todos os limites e diferenças culturais do almoço de domingo.
Pois bem, no ano de 2004, quando ainda cursava jornalismo, mantinha-me empregado em dois estágios, o que me consumia praticamente todo o tempo em que não estava em aula na faculdade. Chegava em casa por volta das 23h30, naturalmente, morto de fome. Nesse estado de pura indefesa estomacal me dirigia à cozinha como um somaliano de baixa renda, louco para manter viva a tradição culinária da família.
No caminho de volta para o lar já imaginava como seria preparado o ovo no leite da noite. Com um pouco de molho shoyu, talvez, ou quem sabe catchup, até mesmo tempero de macarrão instantâneo... tudo é válido!
Foi numa dessas cruzadas diárias que o inesperado aconteceu. Cheguei em casa e meu irmão mais velho, Diego, estava assistindo televisão na sala. Antes de começar a seguir o menu de sempre preparei a estrutura mínima necessária: peguei uma frigideira recém lavada, ainda no escorredor de pratos e a coloquei no fogo. Para diversificar resolvi fritar um hambúrguer juntamente com os ovos. Quando coloquei óleo na frigideira percebi que algo estava errado. O recipiente, que a esta altura estava tampado, começou a fazer barulhos estranhos, como um pacote de pipocas de microondas prestes a ficar pronto. De tão cansado, não percebi que colocava no fogo, uma frigideira ainda molhada. Foi aí que tive a infeliz idéia de chegar mais perto do fogo para identificar o problema. A merda toda explodiu! Só tive o tempo de cobrir o rosto. A tampa voou para o outro lado da cozinha. O óleo, que antes estava dentro da frigideira, se espalhou por todo o chão, não se esquecendo de poupar nem a borracha da porta da geladeira. Graças ao bom Deus e aos Santos protetores dos atrapalhados que nada de mal me aconteceu. Quando tirei a mão do rosto desliguei o fogão. Olhei para os lados e não acreditava no que via. Se alguém viesse me contar, certamente não acreditaria. Era impensável imaginar que fui capaz de fazer toda aquela cagada sozinho. Era óleo pra tudo quanto era lado. Meu irmão, que com o barulho correu em direção à cozinha, provavelmente preocupado com o meu bem estar, ria de se mijar. Dizia que eu teria que limpar tudo aquilo sozinho.
A rotina dupla de estágio já não bastava. As cansativas aulas acompanhadas de profundas cochiladas e babadas no caderno também não. Para fazer jus à minha fama de "só faz merda" tinha que completar meu dia com uma dessas. Resultado: Gastei horas limpando a cozinha. Fui dormir fedendo a óleo e, claro, com muita fome... depois disso, não sei porque, enjoei de ovo no leite!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Eu comprei um peixe

Olho pra ele e não consigo entender. De um lado pro outro a irritabilidade fica evidente pela quantidade de movimentos bruscos e olhares tortos. Dá até medo às vezes. Eu comprei um peixe. Já faz tempo. Mas não canso de olhar pra ele. É bonito, azul, brilhante. Nadadeiras compridas, que parecem um bonito e longo véu, balançando dentro da água clara. Mas voltemos à questão da índole perturbada do animal. Já conhecia a fama antes mesmo de comprá-lo. Fui avisado e mesmo assim paguei pra ver... literalmente. Três reais... foi quanto ele me custou. É um peixe Beta. A espécie inspirou o nome: Beto. E assim fiquei feliz de verdade com a aquisição de um novo amigo. AmigO porque acho que é homem, o vendedor não garantiu que de fato fosse. Ele também não sabia. Daí resolvi escolher o sexo. É macho. Macho e pronto. Mas aí me veio à cabeça a seguinte máxima. Amizade não se compra, né?! Muito menos se escolhe o sexo. De fato, se fosse assim os homens, provavelmente, iriam pôr bundão e cabelo comprido em todos os “brothers”. Por isso acho que o Beto se ofendeu com a maneira pela qual eu escolhi para incluí-lo na minha família. Achei que ele fosse entender, afinal não tenho gabarito suficiente pra pescar nem um lambari que seja, quanto mais um peixe como o Beto, que eu nem sei onde vive. E tem mais. Tive que comprar porque achei que poderia ser difícil conquistar a amizade de um bicho que dizem ser bastante nervoso. Enfim, ele é meu. Meu amigo. Não se discute mais isso. Sendo assim não levei pra casa o primeiro aquário que vendia na loja. Era muito pequenininho, apertado, quadradão, feio, sem simetria nenhuma. Levei o Beto pra casa num saquinho plástico transparente mesmo e logo arrumei pra ele um dormitório decente. Maior, redondo, bojudo... bonitão. No fundo coloquei pedrinhas brancas. Logo acima outras transparentes, maiores, recheadas com detalhes cor de laranja que pareciam pequenas flores dentro de pedaços redondos de cristal. Evidentemente que não era isso, mas que parecia, parecia. Pra completar o cenário de paz da casa onde o Beto morava dentro da minha casa, arranjei um belo exemplar de uma planta verde. Até que vistosa, mas de plástico... somente plástico. Tão artificial que ficava presa no fundo do aquário por uma ventosa e não colaborava em absolutamente nada pra fotossíntese embaixo d´água. Assim fiquei bastante satisfeito com meu novo propósito. Cuidar de um animal. De um ser vivo. Pra muitos o Beto pode não fazer a mínima diferença no mundo, mas pra mim ele passou a ser um companheiro. Afinal ele vive comigo, no meu quarto. No criado mudo ao lado da minha cama. Passou a ser assim: Todo dia eu acordava com o barulho irritantemente alto do alarme do celular, e acho que ele também. Gostava disso porque nós dois despertávamos bem elétricos. Ele era agitado que nem eu. Por isso me apeguei tanto, me identifiquei tanto. E assim a rotina prosseguia. Acordava cedo, às vezes bem cedo. As primeiras palavras costumavam ser: “Bom dia, Beto”. Não ouvia nenhuma resposta nunca, vê se pode?! Mas, tudo bem, nem me abatia com a ignorância alheia. Mesmo com a falta de educação matinal alimentava meu novo parceiro aquático. Todos os dias, duas vezes por dia. Era sempre assim. Cinco bolinhas de ração de manhã, cinco bolinhas de ração no fim da tarde. No domingo então, era uma maravilha... três refeições. Sempre que eu chegava perto do aquário tentava puxar um papo. Geralmente começava devagarzinho. Elogiando sempre, pra inflar o ego do bicho. Falava pra ele que ele estava bonito. Que estava comendo direitinho, que crescia, ficava forte. Dizia sempre que eu estava muito orgulhoso dele. Mesmo assim só recebia em troca cara feia e olhares de repressão. Isso quando ele olhava pra mim. Não eram raras as vezes em que, por conta de tudo isso, eu ficava bem chateado. Em muitos momentos, quando já era tarde, fui dormir contrariado, pensando que logo ali, ao lado da minha cama, tinha alguém que não estava nem aí pra mim. Mesmo assim, sempre dava boa noite. Aí cheguei à conclusão: De fato o Beto era um ingrato. Isso era inegável. Tratava tão bem dele e a agressividade que eu recebia em troca muitas vezes me incomodava. Sou bem da paz, sabe?! Mas também não posso reclamar muito não. Já sabia que os peixes dessa espécie são brigões, mal encarados. Dizem que um Beta é capaz de matar um outro peixinho que for colocado no aquário dele. E que se esse peixinho for um outro Beta, os dois brigam até morrer de cansaço. Trágico não?! Diante da natureza assassina do meu companheiro de quarto decidi ficar na minha. Vai que sobra pra mim. Daí, antes de dormir, com a cabeça no travesseiro, pensava onde eu tinha errado na educação do “meu querido”. Dizem que o Pit Bull é um cachorro agressivo, mas já conheci vários deles bem mansinhos, dóceis e brincalhões. Vai da criação. Achei que com o Beto poderia ser igual. Por isso sempre tratei dele tão bem. Às vezes até tentava acariciá-lo com a ponta do dedo enfiada dentro da água. Mas o Beto sempre fugia. Confesso: Hoje sinto-me um fracassado. Falhei na missão de educar meu peixe. Sento em frente a ele e aí, quando ele enxerga o próprio reflexo no vidro do aquário fica todo inchado. Chego a pensar que é pra mim. Ele estica as guelras e dá uma clara demonstração de que não consegui fazer dele um amigo do peito. Tudo bem. O animal fica o dia todo nadando na água fresquinha, come bem, descansa quando quer, mora numa casa confortável, com piscina... só piscina, e ainda é estressado. Imaginei que se fosse gente, poderia se tornar a representação de um cara podre de rico, casado com um mulherão, cheio de conforto e ainda assim infeliz, ignorante. Imagina esbarrar num sujeito desse na rua?! Melhor que ele continue sendo peixe. Sabe de uma coisa?! Mesmo assim eu ainda trato ele bem. Permaneço com a esperança de que um dia ele se torne mais bonzinho. Vai que eu convenço o bicho. Só tenho medo de uma coisa: Dizem que ele tem vida curta. Vai ver que é porque logo morre de stress. Espero que o meu peixe não tenha um colapso nervoso. Espero que ele entenda logo, e de uma vez, que o melhor mesmo é viver em paz. Boa noite, Beto!

domingo, 8 de junho de 2008

E é por isso que eu gosto tanto de ser brasileiro!

Futebol é o maior barato. Adoro escrever sobre esportes, mas futebol é o que há. Criado com avó, babá e irmã mais velha foi o homem que nunca sonhou em ser jogador profissional um dia. Eu quis, mas evidentemente nunca tive competência futebolística para atingir tal objetivo. Graças a Deus abandonei a idéia e me tornei jornalista assim que percebi minha gritante deficiência com a redonda nos pés. Hoje apenas brinco, bater uma bola é terapia, digo isso a toda hora. Ser repetitivo nesse caso é questão de princípios. E assim como no trabalho, nas amizades, e em muitos dos compromissos diuturnos, divirto-me muito jogando. Demais mesmo. A cena de um “racha” qualquer por si só já é hilária, mesmo ainda sem as jogadas esdrúxulas e as quedas provocadas por pisões, torções e chutes que destroem o refletor. Aquele mesmo que fica a uns dez metros acima do gol, onde o jogador jura que mirou na hora do chute.
Bom, vou provar o que digo enumerando e comentando as bizarrices: Começamos pelo porte físico dos atletas. Quando eu era criança e adolescente os times eram divididos na base do “com camisa e sem camisa”, hoje a galera já conseguiu uns coletes raramente lavados, mas com cores gritantes o suficiente pra tornar injustificada a desculpa de que “errei o passei porque te confundi com o adversário”. E é nesses coletes que vemos uma coleção de barriguinhas um tanto quanto salientes, umbigos, que sufocados pelo tecido fino, parecem um grand canyon em meio a tanta adiposidade. Isso sem falar no estilo dos corredores. A cada meia dúzia de passos ligeiros, uma crise de falta de ar. E não me excluo desse cenário bizarro.
Dando continuidade ao show de horror temos a habilidade propriamente dita, ou a falta dela, no caso. É uma beleza ver um companheiro aspirante a malabarista tentar elaborar uma bicicleta sem tirar o pé esquerdo do chão e acertando a cabeça do zagueiro no momento em que a bola já está quase no meio do campo. Uma beleza de jogada. Robinho então tem de monte. Todo mundo quer pedalar. Daí é comum sempre ter gente com o tornozelo torcido depois de tentar coreografar a miquice. Claro que sempre tem um ou outro que às vezes acerta uma jogada bacaninha e que até joga bem. Mas quase sempre esses se irritam com a incompetência alheia.
Daí chegamos ao ponto talvez mais incrível dessas histórias de boleiros. A famosa “mala”. Pode crer: o mais emperequetado antes do jogo começar é sempre o pior do time. E também é o mesmo que os caras falam bem baixinho pro companheiro ao lado: “Dá uma olhada na chuteira do fera. Deve jogar demais”. Mal sabem. Marrento é a mãe!
Chegamos então a maior das mentiras que contamos pra nós mesmos enquanto nos sentimos Cristianos Ronaldos no campinho de terra. A falsa sensação de “olha como eu sou saudável”. A regra é sempre a mesma: meia hora ou quarenta minutos de pelada pra duas horas de porções de torresmo peludo. Assim que acaba o jogo todo mundo corre pro buteco pra descarregar a tensão acumulada com aquela voadora que levou do zagueirão que agora está aos berros, exaltado pelo efeito de cinco copos da cerveja sem espuma, defendendo o meio campo do timão. Aí o malabarista que chutou a cabeça do colega na tentativa da bicicleta jura que são paulino não é gay e que o Richarlyson não escreveu Ricky na camisa pra provocar a torcida, que foi a namorada dele que pediu. Enfim... depois de cumprir com meu papel de ser mais um especialista nessa grande mesa redonda de bar vou pra casa. Durmo tranqüilo, saciado e cheio de satisfação por saber que, mesmo 500 gramas mais gordo por causa do X-Salada que eu comi por não agüentar a porção de picanha chegar, cumpri minha meta esportiva da semana!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Cada dez preocupações geralmente valem por um único problema de fato... em média.

Começa na cabeça, desce para o peito, aumenta, chega nos braços, irradia para as pernas. Fecho os olhos, respiro, o rosto ganha cor. A situação se repete a cada novo. A cada incomum, alheio. Muitas vezes me impressiono com minha capacidade de mudar meu humor quase sempre irreverente por motivos ingenuamente banais. Mas venho melhorando, juro. A neurose me consome na medida em que me sinto ridículo por saber que mais uma vez queimei neurônios num momento em que poderia tê-los poupado. Um dia sei farão falta. Quando esqueço de enxergar o copo da vida meio cheio a ansiedade pelos passos possivelmente mais largos que as pouco treinadas pernas dá espaço à revolta tímida. Quero mais. Todos querem. Querer só não basta. Quando a insanidade momentânea foge de mim volto a entender que o caminho tem sido trilhado de uma maneira ilustre. Talvez não a ideal, talvez não a mais curta. Mas é uma maneira. Algumas são as palavras-chaves. ‘Paciência’ é, provavelmente, uma das mais importantes nesta escala quase darwiniana. A evolução existe, mas nem sempre chega de 0 a 100 como um motor V8. O sucesso é um carro popular que com o acréscimo de equipamentos sofisticados pode se transformar num esportivo de luxo. Mas pode demorar. Somos mecânicos de um sedan ultrapassado. Restauramos, consertamos, improvisamos. Cada vitória, uma peça a mais rumo a um Lamborghini. Cada stress desnecessário, um parafuso que se solta na estrutura metálica. Espero que as ferramentas das quais disponho sejam suficientes de fato.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Ai, meus tempos de atleta!

Lembra daqueles coelhinhos idiotas que andavam batendo um bumbo feio nas propagandas de pilha? Pois é... eu parecia aquele que não parava nunca. Com os meus 13 pra 14 anos era um perfeito bobo, correndo atrás de bola o dia todo. Ia a escola pela manhã. Chegava a tarde, ia pra casa. Almoçava, fingia que estudava alguma coisa e logo corria para a praia. Bons os tempos em que aquela imensa faixa de areia ficava logo ali, a algumas quadras do lar. Não só pelo simples fato de que o cheiro do mar me faz bem. Mas também porque sempre tem um campo riscado na areia batida a procura de um tonto pra completar um time. Muitas vezes esse tonto costumava ser eu!
Tinha algumas turmas com as quais o futebol semanal era sagrado. Terça, quinta. Segunda, quarta e sexta. Todo dia tinha racha. Cada dia os jogadores eram diferentes. Mas às vezes o pessoal não ia, ou a chuva espantava os atletas que achavam ser de açúcar. Nessas horas saía eu de casa. Shorts, joelheira (porque meu joelho é podre não é de hoje) e tornozeleira de neoprene. Assim que avistava o primeiro quadrilátero com gols feitos com canos de pvc já arriscava pro zagueiro: “Dá pra entrar aí, parceiro?!

E assim passei boa parte da minha infância e adolescência. Daí começaram a surgir as insuportavelmente imprescindíveis responsabilidades da vida de “já quase adulto”. Cresci, arrumei emprego, comecei faculdade e numa direção diametralmente oposta aos meus avanços no mundo de gente grande minguavam minhas oportunidades de bater aquela bolinha de lei. O cansaço foi crescendo, o fôlego diminuindo. Nas raras oportunidades de chutar a redonda com uns parceiros a língua rapidamente parecia atingir a altura do joelho. O suor pesava algumas dezenas de quilos e a protuberância acima da cintura demonstrava que os goles da amarga cerveja se instalavam no que parecia ser um novo membro do meu corpo, a tal da barriga. Algo que sabia não me pertencer, mas que mesmo não sendo bem-vinda insistia em abraçar meu tronco antes esguio.

Hoje onde moro não tem mais praia. Quando jogo é em campo alugado, tem que pagar. Um saco. Mesmo assim sou adulto, tenho salário... salarinho, é verdade, mas tenho, né?! Até dá pra bancar um racha e quando chega a dois o número de partidas numa mesma semana aí estão bons motivos pra festejar. Festejar a saúde, festejar o saudosismo, e por que não, festejar a maturidade. Ah, e antes que eu me esqueça: Nunca fui um grande jogador!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Férias? É... tava precisando!

Foram incríveis quatro anos sem aqueles tão esperados e merecidos 30 dias de descanso. Pois é, emendei um emprego no outro e paguei o preço de ser um perfeito nômade profissional. Em 2006 foram 4 ocupações diferentes em um ano igual. Deu no que deu.
Exausto, saí de férias. Acho que estava tão habituado à rotina insana de trabalho que no primeiro dia da folga estendida fui trabalhar. Juro. E porque eu quis mesmo. Fiz questão de ir editar “na faixa pra empresa” uma matéria que tinha feito um dia antes sobre um árbitro de futebol amador que é uma figura. Achei que deveria. Valeu a pena, ficou legal.

Assim que me vi livre das amarras do emprego corri pra minha cidade refúgio. Cheguei em Santos e tão logo senti o peso da consciência. Sei que precisava de férias, e meu corpo implorava por elas. Mas minha cabeça não pensava assim. Logo na primeira semana já me sentia um completo inútil por não ter nada para fazer. Certamente a psicologia moderna deve ter alguma explicação pra isso. Deve ser alguma síndrome de um workaholic moderno convicto ou algo do tipo.
Mas aqui estou, livre do trabalho e descansando a beça. Pois é, estava precisando de verdade. É a primeira vez que entro em férias pra valer. Sem trabalho, faculdade, escola, curso. Acho que isso me assustou e me assusta. Mereço, sei. Mas sei lá. Vai entender a cabeça da nova geração de trabalhadores. Sempre pensando no futuro. Querendo garantir o sucesso da vida em questão de poucos anos. Todo mundo sabe que se atropelar nos anseios pode ser um erro. Mas prefiro pecar pelo excesso de trabalho e idéias inovadoras do que pela falta de vontade, falta de mudar o que se apresenta pra você como chato. Vai ver que é por isso que acho que férias é pra quem não pensa em vencer. E ainda bem que tenho plena consciência que sou errado ao extremo pensando desse jeito doentio.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O presente do presente

A teimosia é algo digno de quem não pensa. E me coloco nessa classe. Sou teimoso, por vezes chato. Dou murro em ponta de faca. Futebol? Torço, grito, xingo. Muito. Política? Não se comenta em público. Religião? Amém. Tenho a mania de buscar a felicidade. Teimo que no fim tudo vai dar certo. Mas a maior das teimosias, acho eu, é acreditar que tenho poder sobre o meu futuro. Não. Fazer planos é besteira. É querer controlar o incontrolável. É dirigir um carro sem volante. Em alta velocidade. Vivo em busca do futuro. Tolice das grandes. Esqueço do presente. Passado já passou. Mas e o agora? Por que o presente tem esse nome? Presente não se nega. Eu nego. Todos os dias. E só agora eu percebo. Desfeita. Mas vou mudar. Vamos? Abrir os braços. Visualizar o dia envolto num grande laço vermelho. Ver que é da gente. Chegou pra gente. Quem entregou? O cartão está em branco. Faltam dizeres. Quem se habilita? Entendo. O futuro é condicionado ao presente diário de viver. Não é nosso. Não sou jogador de futebol. Nem astronauta. Não é nosso. Sou a imagem do futuro. Aquele incerto. Destino? Acredito, mas é um brincalhão. Estraga festa. O futuro promete o incerto. Transforma o novo em tendência. O presente do destino é sempre surpresa. E deve ser aberto no escuro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Meus amigos são moleques

Meus amigos são moleques. Todos eles. Moleques em todos os sentidos, em tudo... e como são! Tenho na manga, de bate-pronto, inúmeros exemplos de molecagens e molequices. Sabe por quê? Porque moleques são companheiros, são amigos no significado mais estrito da palavra. E é exatamente esse o tipo de gente que eu quero do meu lado. Adulto é sério, chato, irritante, e tem pouca propensão a rir de uma boa piada. Moleques não.
Adoro dicionários. Adoro mais ainda o que neles quer dizer a palavra moleque. Dentre as várias significações destaco algumas: Menino travesso, divertido, engraçado, pilhérico - sinônimo para engraçado, definido como espirituoso, Irônico, zombeteiro, enfim... Um fanfarrão. Claro que pra muitos, e até pro próprio pai dos burros, moleque também pode ser alguém sem qualquer responsabilidade ou desprovido de compromissos. Mas prefiro a definição moleca da coisa.
Pense o que seria do mundo sem os bons moleques? Não teríamos o riso, a gargalhada, e as verdadeiras amizades seriam escassas e insossas. Já imaginou? Pois é, seria realmente um saco. Prefiro sair num dia de semana quase de madrugada em busca de carvão pra fazer “aquele” churrasco na varanda da quitinete. Mal ser reconhecido na rua pelos colegas de trabalho porque não uso boné pra trás quando estou na labuta. Rir das dificuldades, superá-las, e esperar pelos próximos desafios com sorriso no rosto e vontade de vencer. Isso é molecagem, e das boas. Tudo que conquistei na vida foi por meio desta metodologia, inclusive algumas derrotas. Mas até elas foram, e ainda são, grandes lições de como crescer com maturidade, mas claro, nunca esquecendo o jeito menino de ser.
Moleque tem carisma, moleque tem estilo, moleque é cativante. Nasci assim, cresci assim, e, se Deus quiser, desse jeito morrerei, com sorriso na cara. Conheço grandes homens, pais de família exemplares e trabalhadores exímios, muito bem sucedidos, que nunca deixam de lado uma boa travessura. Até hoje acordam os outros com melodias tiradas de tampas de panelas, colocam pinga no bolo de aniversário e pastilhas efervescentes na piscina de mil litros. Pois é, são todos meus ídolos... Achou-me moleque? Obrigado, essa era a intenção!