quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Eu comprei um peixe

Olho pra ele e não consigo entender. De um lado pro outro a irritabilidade fica evidente pela quantidade de movimentos bruscos e olhares tortos. Dá até medo às vezes. Eu comprei um peixe. Já faz tempo. Mas não canso de olhar pra ele. É bonito, azul, brilhante. Nadadeiras compridas, que parecem um bonito e longo véu, balançando dentro da água clara. Mas voltemos à questão da índole perturbada do animal. Já conhecia a fama antes mesmo de comprá-lo. Fui avisado e mesmo assim paguei pra ver... literalmente. Três reais... foi quanto ele me custou. É um peixe Beta. A espécie inspirou o nome: Beto. E assim fiquei feliz de verdade com a aquisição de um novo amigo. AmigO porque acho que é homem, o vendedor não garantiu que de fato fosse. Ele também não sabia. Daí resolvi escolher o sexo. É macho. Macho e pronto. Mas aí me veio à cabeça a seguinte máxima. Amizade não se compra, né?! Muito menos se escolhe o sexo. De fato, se fosse assim os homens, provavelmente, iriam pôr bundão e cabelo comprido em todos os “brothers”. Por isso acho que o Beto se ofendeu com a maneira pela qual eu escolhi para incluí-lo na minha família. Achei que ele fosse entender, afinal não tenho gabarito suficiente pra pescar nem um lambari que seja, quanto mais um peixe como o Beto, que eu nem sei onde vive. E tem mais. Tive que comprar porque achei que poderia ser difícil conquistar a amizade de um bicho que dizem ser bastante nervoso. Enfim, ele é meu. Meu amigo. Não se discute mais isso. Sendo assim não levei pra casa o primeiro aquário que vendia na loja. Era muito pequenininho, apertado, quadradão, feio, sem simetria nenhuma. Levei o Beto pra casa num saquinho plástico transparente mesmo e logo arrumei pra ele um dormitório decente. Maior, redondo, bojudo... bonitão. No fundo coloquei pedrinhas brancas. Logo acima outras transparentes, maiores, recheadas com detalhes cor de laranja que pareciam pequenas flores dentro de pedaços redondos de cristal. Evidentemente que não era isso, mas que parecia, parecia. Pra completar o cenário de paz da casa onde o Beto morava dentro da minha casa, arranjei um belo exemplar de uma planta verde. Até que vistosa, mas de plástico... somente plástico. Tão artificial que ficava presa no fundo do aquário por uma ventosa e não colaborava em absolutamente nada pra fotossíntese embaixo d´água. Assim fiquei bastante satisfeito com meu novo propósito. Cuidar de um animal. De um ser vivo. Pra muitos o Beto pode não fazer a mínima diferença no mundo, mas pra mim ele passou a ser um companheiro. Afinal ele vive comigo, no meu quarto. No criado mudo ao lado da minha cama. Passou a ser assim: Todo dia eu acordava com o barulho irritantemente alto do alarme do celular, e acho que ele também. Gostava disso porque nós dois despertávamos bem elétricos. Ele era agitado que nem eu. Por isso me apeguei tanto, me identifiquei tanto. E assim a rotina prosseguia. Acordava cedo, às vezes bem cedo. As primeiras palavras costumavam ser: “Bom dia, Beto”. Não ouvia nenhuma resposta nunca, vê se pode?! Mas, tudo bem, nem me abatia com a ignorância alheia. Mesmo com a falta de educação matinal alimentava meu novo parceiro aquático. Todos os dias, duas vezes por dia. Era sempre assim. Cinco bolinhas de ração de manhã, cinco bolinhas de ração no fim da tarde. No domingo então, era uma maravilha... três refeições. Sempre que eu chegava perto do aquário tentava puxar um papo. Geralmente começava devagarzinho. Elogiando sempre, pra inflar o ego do bicho. Falava pra ele que ele estava bonito. Que estava comendo direitinho, que crescia, ficava forte. Dizia sempre que eu estava muito orgulhoso dele. Mesmo assim só recebia em troca cara feia e olhares de repressão. Isso quando ele olhava pra mim. Não eram raras as vezes em que, por conta de tudo isso, eu ficava bem chateado. Em muitos momentos, quando já era tarde, fui dormir contrariado, pensando que logo ali, ao lado da minha cama, tinha alguém que não estava nem aí pra mim. Mesmo assim, sempre dava boa noite. Aí cheguei à conclusão: De fato o Beto era um ingrato. Isso era inegável. Tratava tão bem dele e a agressividade que eu recebia em troca muitas vezes me incomodava. Sou bem da paz, sabe?! Mas também não posso reclamar muito não. Já sabia que os peixes dessa espécie são brigões, mal encarados. Dizem que um Beta é capaz de matar um outro peixinho que for colocado no aquário dele. E que se esse peixinho for um outro Beta, os dois brigam até morrer de cansaço. Trágico não?! Diante da natureza assassina do meu companheiro de quarto decidi ficar na minha. Vai que sobra pra mim. Daí, antes de dormir, com a cabeça no travesseiro, pensava onde eu tinha errado na educação do “meu querido”. Dizem que o Pit Bull é um cachorro agressivo, mas já conheci vários deles bem mansinhos, dóceis e brincalhões. Vai da criação. Achei que com o Beto poderia ser igual. Por isso sempre tratei dele tão bem. Às vezes até tentava acariciá-lo com a ponta do dedo enfiada dentro da água. Mas o Beto sempre fugia. Confesso: Hoje sinto-me um fracassado. Falhei na missão de educar meu peixe. Sento em frente a ele e aí, quando ele enxerga o próprio reflexo no vidro do aquário fica todo inchado. Chego a pensar que é pra mim. Ele estica as guelras e dá uma clara demonstração de que não consegui fazer dele um amigo do peito. Tudo bem. O animal fica o dia todo nadando na água fresquinha, come bem, descansa quando quer, mora numa casa confortável, com piscina... só piscina, e ainda é estressado. Imaginei que se fosse gente, poderia se tornar a representação de um cara podre de rico, casado com um mulherão, cheio de conforto e ainda assim infeliz, ignorante. Imagina esbarrar num sujeito desse na rua?! Melhor que ele continue sendo peixe. Sabe de uma coisa?! Mesmo assim eu ainda trato ele bem. Permaneço com a esperança de que um dia ele se torne mais bonzinho. Vai que eu convenço o bicho. Só tenho medo de uma coisa: Dizem que ele tem vida curta. Vai ver que é porque logo morre de stress. Espero que o meu peixe não tenha um colapso nervoso. Espero que ele entenda logo, e de uma vez, que o melhor mesmo é viver em paz. Boa noite, Beto!

domingo, 8 de junho de 2008

E é por isso que eu gosto tanto de ser brasileiro!

Futebol é o maior barato. Adoro escrever sobre esportes, mas futebol é o que há. Criado com avó, babá e irmã mais velha foi o homem que nunca sonhou em ser jogador profissional um dia. Eu quis, mas evidentemente nunca tive competência futebolística para atingir tal objetivo. Graças a Deus abandonei a idéia e me tornei jornalista assim que percebi minha gritante deficiência com a redonda nos pés. Hoje apenas brinco, bater uma bola é terapia, digo isso a toda hora. Ser repetitivo nesse caso é questão de princípios. E assim como no trabalho, nas amizades, e em muitos dos compromissos diuturnos, divirto-me muito jogando. Demais mesmo. A cena de um “racha” qualquer por si só já é hilária, mesmo ainda sem as jogadas esdrúxulas e as quedas provocadas por pisões, torções e chutes que destroem o refletor. Aquele mesmo que fica a uns dez metros acima do gol, onde o jogador jura que mirou na hora do chute.
Bom, vou provar o que digo enumerando e comentando as bizarrices: Começamos pelo porte físico dos atletas. Quando eu era criança e adolescente os times eram divididos na base do “com camisa e sem camisa”, hoje a galera já conseguiu uns coletes raramente lavados, mas com cores gritantes o suficiente pra tornar injustificada a desculpa de que “errei o passei porque te confundi com o adversário”. E é nesses coletes que vemos uma coleção de barriguinhas um tanto quanto salientes, umbigos, que sufocados pelo tecido fino, parecem um grand canyon em meio a tanta adiposidade. Isso sem falar no estilo dos corredores. A cada meia dúzia de passos ligeiros, uma crise de falta de ar. E não me excluo desse cenário bizarro.
Dando continuidade ao show de horror temos a habilidade propriamente dita, ou a falta dela, no caso. É uma beleza ver um companheiro aspirante a malabarista tentar elaborar uma bicicleta sem tirar o pé esquerdo do chão e acertando a cabeça do zagueiro no momento em que a bola já está quase no meio do campo. Uma beleza de jogada. Robinho então tem de monte. Todo mundo quer pedalar. Daí é comum sempre ter gente com o tornozelo torcido depois de tentar coreografar a miquice. Claro que sempre tem um ou outro que às vezes acerta uma jogada bacaninha e que até joga bem. Mas quase sempre esses se irritam com a incompetência alheia.
Daí chegamos ao ponto talvez mais incrível dessas histórias de boleiros. A famosa “mala”. Pode crer: o mais emperequetado antes do jogo começar é sempre o pior do time. E também é o mesmo que os caras falam bem baixinho pro companheiro ao lado: “Dá uma olhada na chuteira do fera. Deve jogar demais”. Mal sabem. Marrento é a mãe!
Chegamos então a maior das mentiras que contamos pra nós mesmos enquanto nos sentimos Cristianos Ronaldos no campinho de terra. A falsa sensação de “olha como eu sou saudável”. A regra é sempre a mesma: meia hora ou quarenta minutos de pelada pra duas horas de porções de torresmo peludo. Assim que acaba o jogo todo mundo corre pro buteco pra descarregar a tensão acumulada com aquela voadora que levou do zagueirão que agora está aos berros, exaltado pelo efeito de cinco copos da cerveja sem espuma, defendendo o meio campo do timão. Aí o malabarista que chutou a cabeça do colega na tentativa da bicicleta jura que são paulino não é gay e que o Richarlyson não escreveu Ricky na camisa pra provocar a torcida, que foi a namorada dele que pediu. Enfim... depois de cumprir com meu papel de ser mais um especialista nessa grande mesa redonda de bar vou pra casa. Durmo tranqüilo, saciado e cheio de satisfação por saber que, mesmo 500 gramas mais gordo por causa do X-Salada que eu comi por não agüentar a porção de picanha chegar, cumpri minha meta esportiva da semana!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Cada dez preocupações geralmente valem por um único problema de fato... em média.

Começa na cabeça, desce para o peito, aumenta, chega nos braços, irradia para as pernas. Fecho os olhos, respiro, o rosto ganha cor. A situação se repete a cada novo. A cada incomum, alheio. Muitas vezes me impressiono com minha capacidade de mudar meu humor quase sempre irreverente por motivos ingenuamente banais. Mas venho melhorando, juro. A neurose me consome na medida em que me sinto ridículo por saber que mais uma vez queimei neurônios num momento em que poderia tê-los poupado. Um dia sei farão falta. Quando esqueço de enxergar o copo da vida meio cheio a ansiedade pelos passos possivelmente mais largos que as pouco treinadas pernas dá espaço à revolta tímida. Quero mais. Todos querem. Querer só não basta. Quando a insanidade momentânea foge de mim volto a entender que o caminho tem sido trilhado de uma maneira ilustre. Talvez não a ideal, talvez não a mais curta. Mas é uma maneira. Algumas são as palavras-chaves. ‘Paciência’ é, provavelmente, uma das mais importantes nesta escala quase darwiniana. A evolução existe, mas nem sempre chega de 0 a 100 como um motor V8. O sucesso é um carro popular que com o acréscimo de equipamentos sofisticados pode se transformar num esportivo de luxo. Mas pode demorar. Somos mecânicos de um sedan ultrapassado. Restauramos, consertamos, improvisamos. Cada vitória, uma peça a mais rumo a um Lamborghini. Cada stress desnecessário, um parafuso que se solta na estrutura metálica. Espero que as ferramentas das quais disponho sejam suficientes de fato.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Ai, meus tempos de atleta!

Lembra daqueles coelhinhos idiotas que andavam batendo um bumbo feio nas propagandas de pilha? Pois é... eu parecia aquele que não parava nunca. Com os meus 13 pra 14 anos era um perfeito bobo, correndo atrás de bola o dia todo. Ia a escola pela manhã. Chegava a tarde, ia pra casa. Almoçava, fingia que estudava alguma coisa e logo corria para a praia. Bons os tempos em que aquela imensa faixa de areia ficava logo ali, a algumas quadras do lar. Não só pelo simples fato de que o cheiro do mar me faz bem. Mas também porque sempre tem um campo riscado na areia batida a procura de um tonto pra completar um time. Muitas vezes esse tonto costumava ser eu!
Tinha algumas turmas com as quais o futebol semanal era sagrado. Terça, quinta. Segunda, quarta e sexta. Todo dia tinha racha. Cada dia os jogadores eram diferentes. Mas às vezes o pessoal não ia, ou a chuva espantava os atletas que achavam ser de açúcar. Nessas horas saía eu de casa. Shorts, joelheira (porque meu joelho é podre não é de hoje) e tornozeleira de neoprene. Assim que avistava o primeiro quadrilátero com gols feitos com canos de pvc já arriscava pro zagueiro: “Dá pra entrar aí, parceiro?!

E assim passei boa parte da minha infância e adolescência. Daí começaram a surgir as insuportavelmente imprescindíveis responsabilidades da vida de “já quase adulto”. Cresci, arrumei emprego, comecei faculdade e numa direção diametralmente oposta aos meus avanços no mundo de gente grande minguavam minhas oportunidades de bater aquela bolinha de lei. O cansaço foi crescendo, o fôlego diminuindo. Nas raras oportunidades de chutar a redonda com uns parceiros a língua rapidamente parecia atingir a altura do joelho. O suor pesava algumas dezenas de quilos e a protuberância acima da cintura demonstrava que os goles da amarga cerveja se instalavam no que parecia ser um novo membro do meu corpo, a tal da barriga. Algo que sabia não me pertencer, mas que mesmo não sendo bem-vinda insistia em abraçar meu tronco antes esguio.

Hoje onde moro não tem mais praia. Quando jogo é em campo alugado, tem que pagar. Um saco. Mesmo assim sou adulto, tenho salário... salarinho, é verdade, mas tenho, né?! Até dá pra bancar um racha e quando chega a dois o número de partidas numa mesma semana aí estão bons motivos pra festejar. Festejar a saúde, festejar o saudosismo, e por que não, festejar a maturidade. Ah, e antes que eu me esqueça: Nunca fui um grande jogador!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Férias? É... tava precisando!

Foram incríveis quatro anos sem aqueles tão esperados e merecidos 30 dias de descanso. Pois é, emendei um emprego no outro e paguei o preço de ser um perfeito nômade profissional. Em 2006 foram 4 ocupações diferentes em um ano igual. Deu no que deu.
Exausto, saí de férias. Acho que estava tão habituado à rotina insana de trabalho que no primeiro dia da folga estendida fui trabalhar. Juro. E porque eu quis mesmo. Fiz questão de ir editar “na faixa pra empresa” uma matéria que tinha feito um dia antes sobre um árbitro de futebol amador que é uma figura. Achei que deveria. Valeu a pena, ficou legal.

Assim que me vi livre das amarras do emprego corri pra minha cidade refúgio. Cheguei em Santos e tão logo senti o peso da consciência. Sei que precisava de férias, e meu corpo implorava por elas. Mas minha cabeça não pensava assim. Logo na primeira semana já me sentia um completo inútil por não ter nada para fazer. Certamente a psicologia moderna deve ter alguma explicação pra isso. Deve ser alguma síndrome de um workaholic moderno convicto ou algo do tipo.
Mas aqui estou, livre do trabalho e descansando a beça. Pois é, estava precisando de verdade. É a primeira vez que entro em férias pra valer. Sem trabalho, faculdade, escola, curso. Acho que isso me assustou e me assusta. Mereço, sei. Mas sei lá. Vai entender a cabeça da nova geração de trabalhadores. Sempre pensando no futuro. Querendo garantir o sucesso da vida em questão de poucos anos. Todo mundo sabe que se atropelar nos anseios pode ser um erro. Mas prefiro pecar pelo excesso de trabalho e idéias inovadoras do que pela falta de vontade, falta de mudar o que se apresenta pra você como chato. Vai ver que é por isso que acho que férias é pra quem não pensa em vencer. E ainda bem que tenho plena consciência que sou errado ao extremo pensando desse jeito doentio.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O presente do presente

A teimosia é algo digno de quem não pensa. E me coloco nessa classe. Sou teimoso, por vezes chato. Dou murro em ponta de faca. Futebol? Torço, grito, xingo. Muito. Política? Não se comenta em público. Religião? Amém. Tenho a mania de buscar a felicidade. Teimo que no fim tudo vai dar certo. Mas a maior das teimosias, acho eu, é acreditar que tenho poder sobre o meu futuro. Não. Fazer planos é besteira. É querer controlar o incontrolável. É dirigir um carro sem volante. Em alta velocidade. Vivo em busca do futuro. Tolice das grandes. Esqueço do presente. Passado já passou. Mas e o agora? Por que o presente tem esse nome? Presente não se nega. Eu nego. Todos os dias. E só agora eu percebo. Desfeita. Mas vou mudar. Vamos? Abrir os braços. Visualizar o dia envolto num grande laço vermelho. Ver que é da gente. Chegou pra gente. Quem entregou? O cartão está em branco. Faltam dizeres. Quem se habilita? Entendo. O futuro é condicionado ao presente diário de viver. Não é nosso. Não sou jogador de futebol. Nem astronauta. Não é nosso. Sou a imagem do futuro. Aquele incerto. Destino? Acredito, mas é um brincalhão. Estraga festa. O futuro promete o incerto. Transforma o novo em tendência. O presente do destino é sempre surpresa. E deve ser aberto no escuro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Meus amigos são moleques

Meus amigos são moleques. Todos eles. Moleques em todos os sentidos, em tudo... e como são! Tenho na manga, de bate-pronto, inúmeros exemplos de molecagens e molequices. Sabe por quê? Porque moleques são companheiros, são amigos no significado mais estrito da palavra. E é exatamente esse o tipo de gente que eu quero do meu lado. Adulto é sério, chato, irritante, e tem pouca propensão a rir de uma boa piada. Moleques não.
Adoro dicionários. Adoro mais ainda o que neles quer dizer a palavra moleque. Dentre as várias significações destaco algumas: Menino travesso, divertido, engraçado, pilhérico - sinônimo para engraçado, definido como espirituoso, Irônico, zombeteiro, enfim... Um fanfarrão. Claro que pra muitos, e até pro próprio pai dos burros, moleque também pode ser alguém sem qualquer responsabilidade ou desprovido de compromissos. Mas prefiro a definição moleca da coisa.
Pense o que seria do mundo sem os bons moleques? Não teríamos o riso, a gargalhada, e as verdadeiras amizades seriam escassas e insossas. Já imaginou? Pois é, seria realmente um saco. Prefiro sair num dia de semana quase de madrugada em busca de carvão pra fazer “aquele” churrasco na varanda da quitinete. Mal ser reconhecido na rua pelos colegas de trabalho porque não uso boné pra trás quando estou na labuta. Rir das dificuldades, superá-las, e esperar pelos próximos desafios com sorriso no rosto e vontade de vencer. Isso é molecagem, e das boas. Tudo que conquistei na vida foi por meio desta metodologia, inclusive algumas derrotas. Mas até elas foram, e ainda são, grandes lições de como crescer com maturidade, mas claro, nunca esquecendo o jeito menino de ser.
Moleque tem carisma, moleque tem estilo, moleque é cativante. Nasci assim, cresci assim, e, se Deus quiser, desse jeito morrerei, com sorriso na cara. Conheço grandes homens, pais de família exemplares e trabalhadores exímios, muito bem sucedidos, que nunca deixam de lado uma boa travessura. Até hoje acordam os outros com melodias tiradas de tampas de panelas, colocam pinga no bolo de aniversário e pastilhas efervescentes na piscina de mil litros. Pois é, são todos meus ídolos... Achou-me moleque? Obrigado, essa era a intenção!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Pela simetria das coisas

Sei que sou neurótico. Isso nunca neguei. Desde peagazinho sempre tive minha “nóias”. Minha mãe nunca me entendeu. Coitada. Nem mesmo ela. Andava pelas calçadas intercalando meus passos com as cores do chão. Pé esquerdo na parte preta do piso, pé direito na branca. E ai de mim se eu errasse. Não podia acontecer. Cresci. E junto de mim minhas manias. Tão esdrúxulas quanto estúpidas. Esbarrava meu braço em alguma coisa e lá tinha eu que encostar exatamente a mesma parte do outro braço pra “compensar”. Isso me irritava. Hoje imagino quanto devia irritar os que estavam junto de mim.
Bom, hoje sou adulto. Tenho casa, coisas, tarefas de gente grande. Pago aluguel, contas. Tenho dívidas. Minhas. E se evolui, evoluíram também minhas “estranhices”. Sou a pessoa mais simétrica que conheço. Os sapatos devem estar exatamente alinhados da mesma maneira. As camisas no armário viradas todas para o mesmo lado, assim como os cabides. Todas seguindo uma ordem lógica de cores. Da tonalidade mais fraca pra mais forte. Da esquerda pra direita.
Meus móveis são poucos, mas retos. Completam-se no ambiente. Formam um só desenho. Meu Deus, que irritante! Não sei como os outros me agüentam. Juro que não. Sou insuportável nesse ponto. Dizem que é excesso de organização. Digo que é algum tipo de distúrbio. Um transtorno obsessivo compulsivo ou algo do tipo que só os psiquiatras descreveriam com certeza de causa.
Meus amigos, que graças a Deus não são poucos, brincam comigo. Tiram as coisas na minha casa do lugar, só porque sabem que eu vou arrumá-las logo em seguida. Riem disso. Sinto-me insuportavelmente desconfortável se o lugar das coisas não tem as coisas no lugar. Vai entender. Só sei que desse jeito me sinto bem. Mesmo que irrite.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O táxi de um real

Muito me admiro quando recebo o convite para ser repórter no Interior de São Paulo. Cobriria as férias de um jornalista consagrado na emissora. Tarefa a princípio complicada. Mas topei. Paguei pra ver. Achei que a experiência de iniciar em tal função, recém formado, com míseros 21 anos de idade, valeria a pena.
Resolvi conhecer a cidade mesmo antes de começar a trabalhar. Dar um pulo na TV e me ambientar no local que me abrigaria como funcionário por um mês. SMOT era meu nome - serviço de mão de obra temporária. Eu era uma sigla.
Como iria falar com meu mais novo chefe, vestia um terno com cheiro de loja, praticamente reluzente. Bem baratinho, é verdade, mas novo. Tinha acabado de comprá-lo em uma loja de fabricação própria em Sorocaba. Pela exigência do cargo vestia-me bem. Ao chegar na rodoviária desço do ônibus, paletó dobrado no antebraço e gravata justa no pescoço. A TV ficava dentro de um shopping, o único da metrópole interiorana. Itapetininga... poucas vezes tinha ouvido falar da pequena cidade.
Dirigia-me ao ponto de ônibus mais próximo. Ao caminhar em meio à pracinha que ficava do lado oposto às plataformas da rodoviária perguntei ao caboclo que fumava um cigarro de palha encostado num poste:
- Amigo, nesse ponto passa ônibus pro shopping?.
E ele, com olhar de “passa, mas demora”, disse:
- Pega uma táxi que é mais fácil.
Quase ao mesmo tempo em que lhe explicava minha indisponibilidade financeira retrucou:
- Custa só um real.
Ora, cidadezinha pacata, sujeito sossegado – até demais – de repente aparece um “metido a executivo” pedindo informação, pensei: “Esse capiau tá tirando uma com a minha cara.”
Chego no ponto intrigado com a informação recebida há pouco e decido abordar alguém com mais gabarito para esclarecer minha dúvida crucial, praticamente questão de vida ou morte. É quando vejo um tipo “organizador de itinerário”. Homem moreno, com prancheta nas mãos, que checava os horários das paradas.
- Aqui passa ônibus pro shopping?.
- De táxi é melhor, hein!
Vixi, olha o outro de conchavo com o capiau. Deixei rolar pra ver até onde o homem iria chegar.
- Táxi passa rapidinho e custa só um real
Imediatamente meus olhos brilharam e ouvi sinos que anunciavam a confirmação de uma antiga utopia, talvez mais velha que minha própria existência. O táxi custava mesmo um real. Já me imaginei indo pra tudo quanto é lugar, conhecendo todos os cantos, todos os becos, toda a “agitação” da cidade carinhosamente apelidada de “Itapê”.
Ao longe avistei o carro com luminoso no teto. Gostosa e vorazmente ergui meu braço para saciar meu desejo de pagar pela confortável condução, o mesmo preço de um cachorro quente com apenas uma salsicha... e sem vinagrete.
O sorriso arreganhado em meu rosto mais que depressa é transformado em expressão de estranheza quando noto que o táxi que parou para atender ao meu sinal transportava outras três pessoas. O fiscal que me orientava antes, prolongando a gentileza, perguntou ao motorista:
- Deixa ele no shopping?
O motorista, que tinha não mais que sete dentes na boca, responde falando fofo:
- Bora!
Tive vontade de chorar... o táxi de um real, que há pouco despertava em mim sensação quase que orgástica era na verdade uma lotação chique.
No interior do veículo, não tão chique assim, o tapete emborrachado, presente na maioria dos veículos, dava lugar a um pedaço de papelão, sujo pela lama das muitas calçadas ainda de barro do município. O cinto de segurança, rasgado pela ação do tempo sujou minhas mãos só pelo toque. Desisti da proteção. Na primeira curva, o barulho de porta de casa mal assombrada que ecoava da suspensão dianteira do carro dava a impressão de que as rodas iriam rolar para o outro lado da rua. Os passageiros iam descendo, um a um. O monte de notas verdinhas presas entre o vão do painel e da direção denunciavam a pechincha da carona.
Pouco antes de chegar no destino combinado notei que na lotação disfarçada de táxi havia sim taxímetro, mas de tão enferrujado provavelmente deveria estar sem uso há muito tempo.
Um real mais pobre chego na TV. Conheço então a estrutura do local. Estúdio, redação, administrativo, comercial. Tudo ali, praticamente no mesmo ambiente. Gostei do que vi. Converso com o chefe, ele me explica o trabalho, a tônica do jornalismo daquelas bandas. Na hora de ir embora procuro avidamente por um táxi que me deixe na rodoviária novamente. Eis que um deles cruza meu caminho. Faço sinal e ele pára.
- Me deixa na rodoviária? Pergunto.
- Aí sai da minha rota. Responde o motorista.
Meu Deus. Além de carregar a mãe, o cachorro e o papagaio, o táxi ainda tinha trajeto fixo. Era o princípio do fim. Atrasado para tomar o ônibus insisto:
- Mas não tem como?
- Tem, mas fica caro! Responde o motorista bigodudo fazendo cara de mal.
Tinha apenas cinco reais na carteira. Preocupado questiono:
- Caro quanto?
- Dois reais.
- Que abuso!
Indago cinicamente. Fingindo um princípio de indignação entro no carro batendo a porta de maneira a fazer jus ao dito do “não tem geladeira em casa”. Porque afinal de contas, dois reais por um táxi, sem dúvida nenhuma é um absurdo!

Penso... que penso demais

Eu que tão acostumado. Hoje como faço? Não sei. Trabalho tem que ser lazer, ter prazer. Às vezes é difícil. Dá o horário, vou pra casa. Ligo pra muitos, poucos me atendem. Convido, preparo um “téra”. Erva, limão. Anfitrião no interior é assim.
Sento na varanda. Mexo a jarra, deixo a água gelar. Sirvo um copo, bebo, passo. Converso, como converso. Falo de mulher, amor, sexo, dor, ódio. Pouco falo de trabalho, ultimamente prefiro que não entre em casa. Casa tem que ser refúgio. Paz espiritual. Então acendo incenso, coloco música tranqüila, Jack Johnson, provavelmente, apesar do clichê. Posso deitar no chão. Apago a luz, viajo. Sozinho penso. Mas pensar demais entristece. Não gosto de ser triste.
Noite é sempre escura. Nunca tinha sido solitária. Agora de fato é. O que fazer, então? Sair de casa. Mas o incenso continua ali, fumegando o ar. Na rua música, dentro dos ouvidos. Alta, boa. Música é importante, essencial pro equilíbrio. Canso de andar, volto pro lar. O incenso apagou. Mas no ar o cheiro é de paz. Organizo o que estiver fora do lugar. Deito, penso... realmente penso demais!